Título: A Outra Face
Autora: Sidney Sheldon
Editora: Círculo do Livro (lido por ebook)
Páginas: 265
Ano: 1970
Nota: ✰✰✰


Sinopse: "Judd Stevens, psicanalista de prestígio, vê-se subitamente envolvido numa sucessão de crimes que precisa desvendar. Entre os suspeitos, estão uma atriz decadente e ninfomaníaca, um pai de família com tendências homossexuais, um empresário paranóico e uma jovem misteriosa. Mas, talvez, não seja preciso ir longe para encontrar o assassino - o psicanalista desconfia que pode estar matando pessoas em momentos de privação de sentidos." (Sinopse retirada do Skoob)


A TramaO livro traz um cenário muito conhecido dos livros de Sidney Sheldon, um assassino, um mistério e muitas pessoas que durante a leitura achamos serem o culpado. Temos um psicanalista como personagem principal que passa a ser alvo de uma série de mortes e tentativas frustradas de alguém querendo matá-lo. Temos também os seus pacientes que por terem distúrbios mentais sérios, são os primeiros elementos que desconfiamos ser o assassino. O livro inteiro ficamos juntando as peças do quebra-cabeças para entender quem está querendo assassinar o Psicanalista, ou se ele está sendo vítima de uma paranóia causada por ele mesmo devido ao cansaço mental.

O ProtagonistaO protagonista é o Psicanalista renomado Dr. Judd, que ao meu ver peca em muitos sentidos dentro da proposta do livro. Sidney é conhecido por criar personagens fortes e de suma inteligência, mas nesse livro a perspicácia do Dr. Judd deixa muito a desejar. Como ele é um psicanalista tem em sua posse diversas informações sobre seus pacientes, porém um paciente em especial ele nem ao menos sabe se seus dados são reais. A personagem em questão dá números de telefone e endereços falsos, o que para um médico que vez ou outra necessita comunicar-se com eles pelo telefone, ele nunca percebeu que o número é inexistente. Além disso em alguns momentos o psicanalista parece mais um curioso com os paciente do que um profissional de livre associação. Ao questionar incisivamente uns pacientes sobre sua vida íntima e a outros nem ao menos quer ouví-los com atenção (mas não seria esse o papel do psicanalista?), isso me deixou bastante decepcionada na construção do personagem. 

 
Personagens SecundáriosAqui temos uma série de personagens secundários pouco desenvolvidos e colocados na história de forma rápida e sem profundidade, o que ao meu ver empobreceu o desenvolvimento da narrativa, já que dentro da trama cada personagem secundário tem um motivo aparente a querer assassinar o psicanalista e é descartado rapidamente, deixando a sensação de que ele apenas queria encher o livro. Se ele tivesse explorado mais as motivações dos pacientes teria uma narrativa bem mais empolgante e mais complicado de sabermos quem era o assassino logo no início (foi isso que comigo aconteceu). Porém devemos também compreender que esse se trata do seu primeiro romance e que ainda estava se consolidando a forma de escrita que ficou conhecida por muitos e seguida pelos seus fãs fervorosos posteriormente. Então de uma forma curiosa esses personagens foram um ponto forte e fraco ao mesmo tempo.



Capa, Diagramação e EscritaEssa capa é bem simples e não deixa muito a entender o que o livro aborda, as cores contrastam uma certa ideia dos filmes antigos e noir, porém a mulher de biquíni na capa em nada tem de especial com o enredo sendo completamente descartável. A escrita é rápida e fácil de acompanhar, uma leitura agradável.

ConcluindoTerminei esse livro com uma sensação de muito estranhamento com o escritor, e um respeito pelas obras seguintes, devido a compreender que a evolução da sua escrita foi muito grande, passando de uma trama rápida e rasa para personagens futuros mais densos e mais envolvimento! Ainda não consegui ler um livro de Sidney até o final e ser surpreendida com a história, porém é sempre uma boa experiência entrar na mente desse autor que criou livros bem elaborados e fãs fervorosos!

Quotes:

"- Eu sempre digo que, quando se quer encontrar conchas é preciso ir à praia. Seus pacientes são todos pirados, não é mesmo?"

"- Ora, deixe disso. Todo mundo tem inimigos. Eu sempre digo que os inimigos são o sal do pão da vida. "

"- É simples. Eu sempre digo que se deve começar a cavar quando se quer chegar ao fundo de alguma coisa. ."

"- Anime-se, Doutor. Pense no progresso que já fizemos. Já sabemos duas coisas. Em primeiro lugar, temos certeza agora de que não está pirado. Em segundo lugar... Moody fez uma pausa, o sorriso desaparecera-lhe do rosto. -...Sabemos também que alguém está ansioso por assassiná-lo, Dr. Stevens."

Título: Um Amor pra Recordar
Autor: Nicholas Sparks
Editora: Novo Conceito
Páginas: 184
Ano: 2013
Nota: ★★★

Sinopse“Cada mês de abril, quando o vento sopra do mar e se mistura com o perfume de violetas, Landon Carter recorda seu último ano na High Beaufort. Isso era 1958, e Landon já tinha namorado uma ou duas meninas. Ele sempre jurou que já tinha se apaixonado antes. Certamente a última pessoa na cidade que pensava em se apaixonar era Jamie Sullivan, a filha do pastor da Igreja Batista da cidade. A menina quieta que carregava sempre uma Bíblia com seus materiais escolares. Jamie parecia contente em viver num mundo diferente dos outros adolescentes. Ela cuidava de seu pai viúvo, salvava os animais machucados, e auxiliava o orfanato local. Nenhum menino havia a convidado para sair. Nem Landon havia sonhado com isso. Em seguida, uma reviravolta do destino fez de Jamie sua parceira para o baile, e a vida de Landon Carter nunca mais foi a mesma. (Sinopse retirada via skoob)

A Trama:  Esse Livro conta a história de uma amor vivido no passado, e é contado pelo Landon Carter, que relembra com ternura e carinho todas as surpreendentes formas de se apaixonar pela garota da qual ele nunca se imaginaria gostando. Vemos os dia a dia de adolescentes no ensino médio, com as incertezas dentro de seu coração e atitudes ainda muito imaturas. O tempo vai passando e percebemos o quanto uma pessoa pode despertar sentimentos estranhos e confusos e até despertar o que há de melhor no outro. Um romance que vai ficando mais e mais real a cada página lida, e o ponto alto quando tudo muda a partir de uma peça de teatro, e depois tudo vai se tornando belo e triste. Afinal, nem todas as histórias de amor são alegres não é?

ProtagonistaMesmo tendo a história contada pelo ponto de vista de Landon Carter considero a grande protagonista a jovem garota Jamie Sullivan, filha do pastor Hegbert, o qual era constantemente motivo de brincadeiras de mau gosto dos alunos. Jamie, era então a garota da qual ninguém convidaria para uma festa. Com uma aparência simples, cabelos sempre presos, e nunca usava maquiagem, Jamie passaria despercebida por todos os garotos. Sempre com sua Bílbia na mão e dotada de uma personalidade doce e altruísta, Jamie me lembrou de certa maneira a personagem Pollyana (que costumava jogar o jogo do contente), por sempre ter pensamentos de alegria e agradecimento. Ela tem um enorme respeito e amor pelo pai e faz de tudo para vê-lo feliz. Já o Landon Carter, era um garoto comum, com um certo egoísmo e sem muita identidade, o que vai se tornando modificada durante o convívio com a Jamie.

Personagens Secundários:  Temos o Pastor Hegbert, pai de Jamie, que além de ser severo, tem uma postura muito regrada sobre os modos de sua filha, Eric e Margaret, amigos de Landon da escola e que vez ou outra aparecem para colocá-lo em situações de vergonha diante da jovem Jamie. E a mãe de Landon, que o apóia nos momentos em que ele mais chega a precisar dela. De resto os personagens restantes fazem apenas parte da construção da história, mas ela se baseia mesmo em torno da relação dos dois jovens. 

Capa, Diagramação e Escrita:  Essa edição é bem simples. A capa é bonita, não deixa nada a desejar, mostra um casal abraçado de forma terna e de certa forma tristonha, a escrita é envolvente e linear, no ponto de vista do personagem masculino, contando como se deu o passar dos dias. Não tive nenhuma dificuldade com a leitura, que fluiu de forma intensa e envolvente. 

ConcluindoTerminada a leitura fiquei repensando um pouco sobre esse tipo de romance, não deixa margem para nenhum tipo de complemento, é bonito na medida certa, sem mais ou menos. Apesar de ter uma alta expectativa com a leitura do livro, essa foi uma leitura muito prazerosa, com uma misto de tristeza e emoção pelo final do enredo. Acrescento que esperava apenas um pouco mais de cenas de romance entre os dois, mas considerando o tipo de educação dada à personagem principal e à idade deles, o livro cumpre o papel que se destina. Sensível e tocante, nos mostra o quanto podemos aprender com as pessoas se deixarmos que elas entrem em nossas vidas. Percebemos o quanto alguém pode se tornar forte e frágil em situações de dor e sofrimento, e mais: o que aprendemos com o que passamos em nossa vida? Reflexões, sutileza nas palavras, fé e abnegação, esses foram os sentimentos despertados em mim durante a leitura. 

Quotes:

"- Porque é que este Natal é tão importante? - perguntei-lhe, e ela sorriu pacientemente, como se fosse uma pergunta que não tivesse grande importância.
- Porque sim - respondeu, apenas. "

"- Tens de prometer que não te vais apaixonar por mim."

" Mesmo comigo ali na sala, pude perceber que ele a amava verdadeiramente e que não tinha medo de o mostrar. O problema era o que pensava a meu respeito. "

"- Sinto muito - disse eu. Sempre que alguém nos conta uma coisa triste, é a única coisa que conseguimos pensar para dizer, mesmo que já o tenhamos dito antes. "

Adriana H. Tavares

Título: Desespero
Autor: Stephen King
Editora: Editora Objetiva
Páginas: 436
Ano: 1996
Nota: 
★★★

Sinopse
"Quando o sol se põe e um vento soturno começa a soprar, tudo pode acontecer. E é bem provável que logo se descubra o verdadeiro sentido da palavra desespero."

Stephen King

Um gato espetado numa placa da Rodovia 50 - uma das mais solitárias dos Estados Unidos - revela que nem sempre é fácil chegarmos ao nosso destino. O professor Jackson e sua esposa, a família Caver e o escritor Jonh Marinville sabem disso. O trajeto até a cidade de Desespero indica que a viagem será sombria e assustadora. Afinal, ao longo deste insólito caminho existe Collie Entragian, um louco disposto a fazer das suas palavras a própria lei. Quem conseguirá sobreviver? Este é o ponto de partida do novo romance de Stephen King, "Desespero".

Neste romance, o grande mestre descreve a luta apocalípitca entre Deus e o demônio que acontece na pequena cidade de Desespero. O terrível personagem Entragian é apenas uma ponta visível de um terror que tem longos e poderosos tentáculos. O confronto é cruel e literalmente desesperador..... (Sinopse retirada via skoob)

A TramaBom, a ideia inicial do livro se dá exatamente pelo título, uma cidadezinha no meio do nada onde o sentimento toma nome e cria uma teia de terror e medo: o Desespero. Uma pessoa, Collie Entragian, aparentemente um policial, começa a capturar pessoas e levá-las para a cidade de Desespero. Mas quando elas chegam lá o que se sucede é uma série de assassinatos, crueldades e palavras soltas num idioma que as intriga. E símbolos, lendas e histórias distorcidas pelos habitantes e pelo tempo, os Can Taks, uma mina desativada e fantasmas. E o porque delas estarem ali é um quebra-cabeças que vai se construindo devagar e lentamente. As pessoas que o Entragian escolheu tem momentos de pavor constantes, David, um menino de 11 anos que tem fé em seu Deus os ajuda nessa compreensão do que eles estão fazendo ali, porém o mal ataca a cada página lida, e as peças do quebra-cabeça vão pouco a pouco se encaixando. O que elas tem de especial para terem sido escolhidas para aquele tipo de sofrimento? O que são essas forças escuras e os Can Taks? Uma mistura de mistério onde cada coisa a ser descoberta é também um perigo à espreita.

O ProtagonistaTemos aqui duas forças como protagonistas, o bem (retratado pela imagem do garoto de 11 anos), David, cheio de fé e certeza de algo que o guiava, e o mal, representado inicialmente pelo Collie Entragian, os animais do deserto, os símbolos ou Can Taks,  e mais, diria que o maior protagonista desse livro é a cidade: Desespero. Um lugar onde as piores coisas acontecem. 


Personagens SecundáriosSe o que você busca nesse livro são personagens destaques, não vai encontrar aqui apenas um; pois temos mais de um personagem que nos trazem cada um uma história, uma vida em particular que é contada minuciosamente e que faz à primeira vista um emaranhado de histórias dentro da história. Temos a família Carver, aparentemente cheia de soberba e dinheiro, Peter e Mary, um casal sem muita expressividade, O Jhonny Marinville, um escritor de meia idade sem mais nada a escrever, ex alcoólatra, Steve, seu agente que sempre busca ajudá-lo, e outros que vão ao longo das páginas deixando sua importância na trama. Nada é passado como secundário, tudo tem um papel único para a trama. 


Capa, Diagramação e EscritaA capa é bonita, simples, e com uma placa de rodovia, mostrando a estrada e o que mais espera no livro: sombras e mistério. A escrita é feita através dos diálogos e extensas descrições de cena, característica ímpar do Stephen King, com divisões e uma narrativa até linear, vez ou outra voltando um pouco no tempo (não muito), para explicar alguns fatos.

ConcluindoTerminei esse livro com uma sensação de espanto, afinal é exatamente isso que nos causam os livros de terror de Stephen, de que alguma coisa, uma coisa muito real se espreita pelas brechas das portas de noite e nos ataca. Uma leitura que apesar de ser lenta e demasiadamente detalhada traz um terror real de quem lê, e a pergunta que paira durante todo o livro: O que Deus quer de todos? Afinal o que tem de maior através das crenças de cada um? São 436 páginas onde ficamos ofegantes com o desenrolar de cada personagem, torcemos por cada um deles, mesmo quando não simpatizamos com eles no início, e esperamos que tudo termine bem. Mas, e termina? Leia você e descubra também! Tak!

Quotes:


"— Mas a crueldade de Deus aperfeiçoa a gente... é o que dizem, pelo menos. Certo?"


"— O que esse menino fez lá atrás... o jeito como saiu da cela... aquilo era impossível — disse Billingsley. "


"— Deus, aqui é David Carver de novo. Estou numa confusão tão grande, Deus, tão grande. Por favor, me proteja e ajude a fazer o que tenho de fazer. Em nome de Jesus eu rogo, amém. "


"— Se isso é um exemplo de que Deus está conosco, espero nunca chamar a atenção dele quando ele estiver com a macaca — disse Johnny. "


Título: Ensaio sobre a cegueira
Autor: José Saramago
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 310
Ano: 2006


SinopseUm motorista parado no sinal se descobre subitamente cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos se perceberão reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

O "Ensaio sobre a cegueira" é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". (Sinopse retirada via skoob)


A TramaBom, falar sobre esse livro é mergulhar nos nossos mais profundos sentimentos acerca do outro. Temos aqui uma cegueira que se espalha sem motivo aparente e que acomete as pessoas bruscamente, fazendo com que o "Governo" as isolem para conter a infestação. Ainda dentro dessa ideia de infestação as pessoas são confinadas em um manicômio, um ambiente cheio de regras ditadas pelos que vêem e que estão do lado de fora; vivendo com a incerteza de uma cura, com pouca comida, sem conforto e com os nervos no seu limiar. Uma cegueira branca, onde o que mais se "vê" é a luz branca e nada mais. O que o livro tem de proposta é provocar uma profunda reflexão de quem somos, o que somos, do que somos capazes em situações extremas, o que é bem e mal, enfim toda uma rede complexa de pensamentos sobre viver em cativeiro e dentro de uma sociedade excludente e sem leis. Durante o decorrer dos dias a cegueira não tem nenhum retrocesso, a comida está acabando, as pessoas matando por um pouco de qualquer conforto possível, se tornando os animais que nasceram para ser. Até que ponto? Convido você a ler também e se questionar, encontrar dentro da cegueira, da fome e do desespero algo mais.  

ProtagonistaAqui diferente dos outros livros padrões que estamos acostumados a protagonista é sem sombra de dúvidas a cegueira súbita, o "mal branco". E acreditem ou não essa é uma protagonista de personalidade (se é que posso chamar assim) forte, ela comanda todas as pessoas que ali se encontram, mudando o que as pessoas são, ou apenas realçando o que elas fingem não ser e expondo as verdadeiras facetas dos seres humanos que estão em seu domínio... Ela extrai todos os sentimentos e os refina, percebemos aqui como a cegueira pode criar laços de amor sincero e ódio extremo (e mais um questionamento: e se você amasse algo que não vê, se pudesse ver continuaria a amar?). Ou se amando algo que vê e não pode mais continuaria assim? Será que o que os olhos não vêem o coração não sente? A cegueira branca nos mostra estas e tantas outras perguntas.


Personagens SecundáriosPodemos aqui elencar todos os outros personagens do livro, e alguns deles poderiam até ser considerados como protagonistas, devido à expressividade em todo o livro. Aqui nenhum personagem tem um nome, e nem assim se apresentam visto que como cegos não necessitam de uma "identidade". São esses personagens que lutam com a cegueira e com a sobrevivência dia após dia. Apenas um personagem aqui não está cego, e é nela que todos os relatos do livro são feitos, ela se diz cega para poder acompanhar o marido e é através dos olhos dela que sabemos o que se passa. É a mulher do médico (que ainda vê), o médico oftalmologista (o qual de nenhuma serventia tem já que cego se encontra), o rapazote, a mulher de óculos escuros, o homem da faixa preta, o ladrão, o primeiro cego e assim por diante. Esse núcleo é o primeiro a cegar e portanto os que traçam laços entre si para poderem sobreviver. Enquanto lutas, medo, angústia e incerteza tomam conta dos cegos, a mulher que vê deseja diariamente o dia em que cegará e sairá dessa situação onde ver é uma dor que talvez ser cego a aliviasse. Aqui o ditado: "em terra de cegos quem tem um olho é rei" é posto a prova.



Capa, Diagramação e EscritaEssa edição é simples. A capa é simplista, visto que não dá a ninguém uma primeira impressão sobre o tema! A escrita é um tanto cansativa já que segue um estilo de escrita próprio do Saramago, onde o indireto se liga com o direto e não se encontram pontuações que distingam quem fala ou que pausa demos nas frases. Não há travessões, aspas e pontuações como as que estamos acostumados, e isso nos deixa um pouco cansados na leitura. Com o passar das páginas isso foi ficando menos evidente, e a leitura seguiu mais tranquila. Um relato descritivo pelos olhos da mulher que ainda vê.

ConcluindoTerminei esse livro com uma sensação de agonia e revolta. Foi uma experiência fantástica e super indico se você deseja sair da zona de conforto e se permitir ver pelos olhos dos outros. Sim, o livro nos faz questionar muitas das nossas mais secretas indagações, se somos um indivíduo realmente independente; se somos projeto de uma sociedade e quando essa sociedade cai por terra quem somos? Me coloquei inúmeras vezes no lugar dos cegos, e da mulher que via, e não sei qual era pior. Não sei o que responder a cada questionamento feito durante as páginas, o que sei é que esse livro me trouxe vários e vários momentos de angústia "branca", de um medo de que ao fechar os olhos tão cega eu ficasse, mas não da cegueira dos olhos, e sim da alma.


Quotes:

"...a cegueira não se pega, A morte também não se pega, e apesar disso todos morremos..."

"...A mulher do médico disse, Todos temos os nossos momentos de fraqueza, ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos..."

"...Parece outra parábola, falou a voz desconhecida, se queres ser cego, sê-lo-ás. Ficaram calados..."

"...Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos..."

Adriana H. Tavares

Estou leve, como se meu coração fosse feito de milhões de bolinhas de isopor das caixas de eletrodomésticos... E o meu pensamento corre fluido como o ar das bolhas de sabão feitas pelas crianças em seus devaneios infantis... Meu peito sorri com o estalar de dedos ao ouvir uma canção de infância. Ou o bater de palmas sincronicamente colocadas pelos que exultam uma ópera. Não temo o amanhã, não hoje! Hoje quero apenas me vestir de ingenuidade e sorrir ao deleite do vento nos meus cabelos... E perceber a felicidade nos mais extensos detalhes do dia. Quero abraçar árvores sem ligar para o deboche alheio. Quero ver desenhos nas nuvens e fechar os olhos ao fazer uma prece pelos que amo. Quero ser sempre o que tanto me ensinou minha mãe: Um coração sempre pronto a amar e amar!!! 

A Cicatriz

Corte leve, raso, sem muito dano.
Cortes profundos, rasgados, abertos.
Figuras distorcidas, emendas, borrões
Súplica, dor, medo.
Através do espelho vejo um eu embaçado
Cheio de fragmentos costurados com desleixo
Uma boneca de pano feita sem molde e parco enchimento.
Um manejo de sub-vidas mal vestidas.
Trapo humano, um ser disforme
Passei na aula de corte e costura da alma,
Mas só cosi o ego alheio,
De mim, nada mais que retalhos e retratos em preto e branco
Uma marca de nascença, uma unção com bálsamo.
Álcool pra sanar a voz, e quem sabe fechar as feridas
Carne trêmula, peito em chama.
E de sobremesa um amor perfeito despetalado.
Entre os botões e agulhas de minha vida,
Fiz tapete de tramas e desgraças.
A linha passa serelepe marcando minha pele,
Chamo de bordados, rendas, minha vida desenhada
do que os outros chamam cicatrizes.

Adriana Holanda Tavares

O Cadáver

Aos meus, teus, ante-passados

Nas profundezas de minha alma aflita encontrei o tão esperado refúgio dos que dormem. E nas contas gastas do terço de minha mãe eu aprendi o sentido da fé. E tal como freira cativa à não liberdade meu peito abriu-se para o novo. Eu busquei mil vezes o veneno vivo das tuas palavras, e só encontrei ruídos abafados de poeira e sonhos distorcidos.
Quisera eu ter sucumbido como os que sucumbem diante da dor e da agonia, mas ainda estou aqui. E como folha seca que cai sem rumo, estou a te espreitar sorrateiro. O vento uiva suave, mais suave que faca cortando a carne branca e alva dos assassinatos domésticos. Não sei onde estou, sei apenas da maldita sentença que me cabe, vagar entre os pensamentos alheios, como se buscasse uma lembrança feliz e amena.
A rigidez de outrora sumiu, sou mole e escorregadio, tal como é viscosa a sua certeza. Tu foste em tempos perdidos a luz que me fazia sombra fresca. Antes o sol ofuscava o ser que fui, agora nada mais resta em minha perpetuidade, só negror e sujeira.
O frio toma conta de minha pele tal como a febre dos amantes toma-lhes o corpo em sussurros indecentes. E me deixo cair em tentações e devaneios. Tomastes tudo o que me fora roubado um dia, afinal o ciclo é este, e me resta agora a piedade dos que oram pelas sete almas do purgatório. Esperarei que por ventura uma prece errante me adentre a consciência e me poupe o trabalho de rogar por mim ou nós. Ah, o tempo passa lerdo e gargalha sem escrúpulos. Maldita és tu! Antes houvesse me despedaçado em grãos e semeado a terra, mas preferistes com os teus enleios e encantos me aprisionar cadáver nessa vasta vida!

Adriana Holanda Tavares